Capítulo 16: Caderno
Eu não ia fugir.
Essa frase apareceu pela primeira vez na minha cabeça às dez horas da manhã, ainda no studio. Letícia já tinha ido embora, dizendo que ia arrumar uma entrevista qualquer para manter a presença digital, mesmo que não houvesse contrato. Bia ficou, mas foi para o banheiro. E eu estava sozinha com o pensamento que não parava.
Não ia fugir. Não como fazia antes. Cada vez que a situação ficava difícil, eu saía. Fim de relacionamento, fim de contrato, fim de tudo. O método que ensinei a milhares de pessoas era a saída. Mas agora, a saída era exatamente o que eu não queria.
Peguei o celular. O número de Mariana estava na memória sem rótulo. Eu o guardei como algo que poderia ser útil um dia e agora o dia tinha chegado.
Liguei. Três toques.
"Alô." A voz de Mariana sempre teve um tom de quem está pronta para um trabalho. Rápida, limpa, sem desperdiçar sílabas.
"Marianinha. Eu preciso de você."
"Eu estou esperando. Não 'preciso de', 'preciso de'. Você precisa de mim agora."
"Fico em dois dias. Você pode ir até o apartamento?"
Um silêncio curto. Não de cálculo. De surpresa.
"O quê."
"É. Eu preciso de alguém que não seja da família, não da empresa, não do meu estúdio. Alguém que esteja do outro lado. Você."
Mariana chegou às dez e meia da manhã.
Não veio de táxi, nem de aplicativo. Veio de Uber, sentou-se no banco de trás, e chegou ao apartamento exatamente quando eu esperava. Trazia uma bolsa preta e um caderno.
Caderno. Não um laptop. Não um gravador. Um caderno de capa dura, marrom, daqueles que todo mundo guarda debaixo da cama como segredo.
"O que é isso?"
"Era minha. Quando eu comecei. Antes de você me chamar para trabalhar no estúdio. Eu escrevia nele tudo o que aprendia com você. Coisas que você nunca te ensinou de propósito. Só eu percebia depois."
Mariana entrou no apartamento como quem visita um lugar que ainda não conhece, mesmo que já tenha estado lá. Deixou a bolsa perto da porta. O caderno foi para a mesa da cozinha.
"Eu não vou gravar nada", disse. "Eu não vou filmar nada. Se você quer que eu te ajude, a gente conversa como pessoas. Não como profissionais."
"Eu sei."
"Sabe?"
"Sabe."
Sentamos no chão da sala. Mesma posição que Rodrigo ocupara na noite anterior. Duas mulheres no chão de um apartamento que não era nosso, no centro de São Paulo, em uma manhã de terça-feira. Não havia câmera. Não havia ângulo. Não havia público.
Mariana abriu o caderno. Não eram páginas em branco. Estavam cheias. Letras pequenas, apertadas, escritas em cada canto. Notas que pareciam ter sido feitas em silêncio, de madrugada, quando ninguém ia ver.
"E eu preciso ouvir você falar o que está sentindo", disse. "Sem roteiro. Sem ângulo. E sem a palavra 'parceiro'. Não sei se é amor. Não sei se é dependência. Não sei se é qualquer coisa. Eu sei que não sei. E preciso que você me ajude a saber."
Mariana não respondeu de imediato. Pegou o caderno e folheou as páginas. Não com a rapidez de quem está pressa, mas com a lentidão de quem lê um documento que não quer perder.
"Quando eu gravei o vídeo de quarenta e dois minutos", disse, "eu achei que estava te ajudando. Que era o certo a fazer. E foi. As pessoas viram. O mundo viu. Mas eu perdi algo que não sabia que tinha antes de ver."
O que Mariana perdeu não foi dinheiro, nem seguidores. Foi a certeza. Antes do vídeo, ela tinha convicção. Depois, tinha dúvida. E dúvida, na vida de quem sobrevive de certezas, é uma tempestade.
"E agora?"
"Agora estou aqui. Com um caderno que eu escrevia antes de saber tudo. E preciso saber se o que você está sentindo é algo que pode ser dito sem câmera."
Isso é diferente de tudo o que eu já fiz. Não é um vídeo. Não é um post. Não é uma estratégia. É uma conversa com uma pessoa que, há seis meses, eu teria tratado como concorrente. Alguém para derrotar. Para superar. Para deixar para trás.
Mariana não é para trás. Mariana está aqui, de caderno aberto, esperando que eu fale sem filtro. E é a primeira vez que falo.
"Eu estou sentindo medo."
"As pessoas sempre falam o contrário primeiro. Falam 'paixão'. Falam 'conexão'. Falam 'algo que nunca senti'. Você disse 'medo'."
"E é medo. Medo de que eu esteja errada. Medo de que eu esteja sentindo algo que eu não sei interpretar. Medo de que eu não saiba o que é amor, já que tudo o que sei é sobre o fim do amor. Medo de que eu não saiba o que é."
Mariana anotou algo no caderno. Não uma frase. Um traço. Uma linha vertical que ia de uma margem à outra.
"Mariana, o que é ser real num mundo de conteúdo?"
Essa pergunta quebrou o silêncio. Não porque a resposta era difícil. Porque a resposta não existe em uma frase. É algo que se vive, não algo que se diz.
"Quando eu comecei", disse Mariana, "eu gravava tudo. Vídeos sobre relacionamentos. Análise de perfis. Tudo. Mas eu tinha um caderno secreto. Nele, eu escrevia o que eu não gravava. O que eu sentia. O que eu tinha medo. E o caderno era a única coisa na minha vida que era minha de verdade. Não do algoritmo. Não do público. Minha."
"Por que você parou de escrever?"
"Porque o caderno virou conteúdo. Eu comecei a escrever nele pensando em como ia transformar o que escrevia em vídeo. E aí o caderno parou de ser meu. Virou material. E material não é o mesmo que verdade. Verdade é o que você escreve quando não tem ninguém pra ver."
Eu olhei para o meu próprio caderno, que eu nunca tive. A minha vida inteira foi pública. Cada sentimento, cada decisão, cada frase. A diferença entre mim e Mariana, nessa manhã, era que eu não tinha um caderno. Eu tinha 2,3 milhões de seguidores. E cada um deles era uma lente. Eu não podia olhar para baixo sem pensar no ângulo.
A conversa durou horas.
Nada de gravação. Nada de anotações. Nada de métricas. Apenas duas pessoas sentadas no chão de um apartamento pequeno, falando de tudo e de nada. Do que é acordar sem saber para onde se vai. Do que é sentir algo e não saber nomear. Do que é estar presente num lugar que não foi escolhido como cenário.
Mariana me perguntou por que eu não tinha parado de calcular. Por que, mesmo depois de tudo, eu ainda mediava o impacto de cada palavra. Eu não tive uma resposta pronta. Só admiti que não sabia.
"Não sei como parar", disse. "Não sei como deixar de pensar em ângulo. Tudo o que eu sei é ângulo. Se eu parar, o que eu sou?"
"A mesma coisa. Só que agora com menos ruído."
"E se o ruído for tudo que eu tenho?"
"Então você vai descobrir que tem mais do que ruído. Ou não. Mas pelo menos você vai saber. Não vai saber por palpite de alguém. Você vai saber por experiência."
Essa era a diferença. Tudo o que Mariana me disse, eu já sabia de alguma forma. O problema era que eu já sabia antes. Eu sabia o tempo inteiro. E sabia porque tinha visto isso acontecer antes. Não comigo. Com pessoas. Com clientes. Com vídeos. Eu sabia o que acontece quando se é visto. Mas nunca tinha vivido o que acontece quando se para de ser visto.
Às duas da tarde, Letícia chegou.
Não avisou. A porta se abriu e Letícia estava lá, trazendo o mesmo ar de quem já visitou mil vezes. Não precisava de convite.
Letícia olhou para Mariana. Olhou para o caderno. Olhou para mim.
"É ela."
"Sim."
"Você ligou para ela."
"Sim."
"E ela veio com um caderno."
"Sim."
Letícia sentou no chão. Não na poltrona. Não na cadeira. No chão. Mesmo gesto que todas as outras pessoas estavam fazendo nesse apartamento. Sentar sem papel, sem função, sem status.
"O que vocês estão fazendo?"
"Conversando. Sem roteiro."
"Isso não é o mesmo que conversar."
"Também não é o mesmo que não conversar. Isso é conversar sem roteiro. Tem diferença."
Letícia não respondeu. Ficou sentada e olhou para o caderno de Mariana. O caderno de Mariana não era bonito. Tinha a capa riscada, as páginas amareladas, o cadarço solto. Mas era o único objeto no apartamento que não pertencia a nenhum contrato, a nenhum produto, a nenhuma estratégia.
"Ela veio falar sobre o que é ser real.", disse Mariana para Letícia. "Eu não tenho opinião sobre o que você faz. Mas ela tem. E ela precisa saber o que é ser real antes de decidir."
Letícia não teve nada a dizer. Ficou em silêncio. Não o silêncio desconfortável. O silêncio de quem está ouvindo algo que não esperava e que está mudando a forma como ouve.
"E o que é ser real?" perguntou Letícia, depois de um tempo.
"Acho que é quando você não pensa em quem está vendo."
A resposta de Mariana fez Letícia respirar fundo. Não de raiva. De algo que eu não consegui nomear.
A tarde passou. O sol entrou pela janela grande e iluminou o chão. Não era o mesmo sol que entrava no estúdio de Vila Madalena, com suas luzes de estudo e seus refletores. Era luz de rua. Fraca. Amarelada. Vinda de postes que não tinham sido trocados.
Mariana me contou algo que eu não sabia sobre ela. Sobre o que sentiu quando fez o vídeo de quarenta e dois minutos. "Eu achei que era justiça. Que estava fazendo o certo. Que eu estava exposta. Que eu estava me entregando. Mas o que eu estava fazendo era repetir o que você me ensinou. Eu usei o método de saída para sair de você. E foi por isso que eu não postei o material do noivado. Não foi generosidade. Foi medo. Medo de ter repetido o padrão uma vez mais sem entender que eu estava quebrando o ciclo."
Isso me doeu. Não de forma física. De uma dor que eu reconhecia. Era o mesmo tipo de coisa que eu sentia quando uma seguidora me escrevia dizendo que meus vídeos a salvaram. A dor de saber que você está certo e que está errado ao mesmo tempo. Que você está ajudando e que está fazendo mal. Que você está certo para alguém e errado para outra.
"Eu aprendi com você", disse Mariana. "E o que eu aprendi me levou a destruir o relacionamento de duas pessoas que não mereciam. E eu não posso voltar no tempo. Mas posso escolher o que faço agora. E estou aqui. Com um caderno. Com você. Sem roteiro."
Mariana e eu ficamos sozinhas por um momento.
Letícia foi para o quarto. Estava cansada. Não o cansaço de quem tem muito trabalho. O cansaço de quem não tem trabalho. Aquele tipo de cansaço que se instala quando você passa um dia inteiro sem ter uma razão para estar acordada.
"Mariana. O que eu preciso fazer?"
"Ela sentiu."
"O que isso significa?"
"Significa que você está sentindo algo que não é farsa. E isso é diferente. A farsa tem começo, meio e fim. Sentimento tem começo e não tem fim. Não tem roteiro. Não tem estrutura. Não tem estratégia. Tem só a escolha de continuar ou não."
"E se eu escolher continuar?"
"Então continue. Não como contrato. Não como negócio. Como escolha. Você escolhe ficar. Escolhe não sair. Escolhe não medir. Escolhe não postar. Escolhe estar. E se essa escolha for errada, você aprende. Como se aprende tudo. Sentindo."
A noite caiu novamente. A luz da rua entrou mais forte. Carros passando na rua abaixo. O mesmo barulho de sempre. A cidade que continua, indiferente ao que acontecia num apartamento pequeno no centro de São Paulo.
Mariana fechou o caderno. Guardou na bolsa. Levantou.
"O que eu aprendi hoje é que amor é uma escolha."
"Não é sentimento?"
"É. Mas é uma escolha. Você pode sentir e não escolher. Ou escolher e não saber o que sente. Mas a escolha é o que importa. Não o sentimento. Não a química. Não a conexão. A escolha de ficar. De não sair. De não calcular. De não postar."
"Como saber se é a escolha certa?"
"Não dá pra saber. Isso é a parte que ninguém te conta. A escolha é feita sem certeza. É feita no escuro. É feita com medo. É feita com vontade. É feita porque você está cansado de calcular. É feito porque você não sabe o que é ter certeza. É feito porque, no final das contas, o único risco que vale é o que você toma sem ter como medir o resultado."
Mariana me apertou o ombro. Um gesto que não tinha significado profissional. Um gesto de quem está presente. De quem não está calculando o impacto do toque. Apenas tocando.
"Eu vou embora. Mas o caderno fica. Deixa pra lá."
"Não."
"Deixa. Você precisa ter algo que é só seu. Não do algoritmo. Não do público. Só seu."
Eu fiquei sozinha.
Não sozinha como na primeira noite do contrato. Sozinha como quem está finalmente decidindo algo. O apartamento tinha as mesmas duas camas. A mesma mesa. As mesmas duas cadeiras. A mesma janela que mostrava a rua. A mesma luz. A mesma cidade.
Mas agora eu sabia o que ia acontecer amanhã. Não com certeza. Sem roteiro. Sem estratégia. Apenas com a decisão de que eu ia tentar. Tentar não calcular. Tentar não medir. Tentar estar presente.
Peguei o caderno de Mariana. Abri a capa marrom. O interior estava em branco. O primeiro espaço. O primeiro traço.
Escrevi uma linha. Não uma frase. Uma linha. Um traço que eu não ia publicar. Que eu não ia mostrar. Que era só meu.
Às onze da noite, toquei a porta.
Do outro lado, Rodrigo. Sentado no chão, de costas para a parede. Mesma posição de duas noites atrás. A diferença era que agora eu não estava esperando uma resposta que ele já sabia que ia dar.
Abri a porta.
"Podi?"
Ele levantou. Não fez gestos. Não disse "entre". Fez espaço. E espaço, nesse caso, era mais que uma palavra. Era a escolha de existir numa forma que já era.
Entramos na sala. O caderno estava debaixo do braço. Eu não sabia o que ia dizer. Não havia roteiro. Não havia ângulo. Havia só a decisão de que eu ia dizer o que estava sentindo.
"Eu não vou fugir", eu disse. "Não porque eu saiba o que estou sentindo. Porque eu sei que a fuga já não é mais uma opção."
Rodrigo não se moveu. Não houve surpresa no rosto. Havia só escuta. A mesma escuta que ele sempre teve. A mesma que me fez sentir, pela primeira vez, que eu podia ser vista sem ser julgada.
"Eu preciso falar algo que eu nunca falei.", eu disse. "Eu preciso que você saiba. Não porque você precise saber. Não porque isso seja estratégico. Porque eu preciso dizer."
"E estou aqui", Rodrigo disse.
E eu disse.
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